Amor não Correspondido



Quando você se apaixona mas não está com esse alguém e esse alguém não te quer, tudo se resumirá em cachaça ou poesia (quem é rude no escrever ou cuja ideia não sai da cachola para o papel, ouve música daquelas de doer os cotovelos até do vizinho!).
Há alguns poucos que simplesmente desistem da vida, talvez por não suprir amor próprio e não tomar doses de Filosofia! Tristeza a gente sempre vence, ainda que com esforço e tempo! Do limão fazer uma limonada ou uma caipirinha!
Pode ser que o triste da gente se remedeie com os mais variados dos curativos, os "mertiolates do coração ferido". Cada um tem seu jeito de fugir da dor sentimental que lhe afoga o peito!
O amor não correspondido, o desejo incontido, é um absurdo de aparente contradição, pois o distante não é distante!
Já viu maior petulância inconsciente de quem a gente quer e não nos quer! O poeta Manoel de Barros, sintetiza essa maluquice:

"Tem mais presença em mim o que me falta."

O poeta e a Morte



O Poeta e a Morte

Em uma noite confusa,
A sensual dona Morte
Veio ter com o poeta,
Enquanto ele dormia.

A morte foi beijá-lo,
Mas o poeta acordou
Segurou-a pelos braços,
Cochichou no ouvido dela
E logo caíram na risada.

O poeta falava
E gesticulava no ar
E então a dona Morte
Se despediu calorosamente,
Prometendo uma visita
No futuro inevitável.

Sozinho novamente,
O poeta ficou a pensar:
O futuro pode ser
Daqui a um segundo
Pode ser amanhã
E quando ele surgir
Não me verei mais
No segundo instante!

Teoremas


Tenho pena de mim
Eu sem você agora...
Uma estrela explode
Mil meteoros atingem
O meu coração :
Oh, sim
O big bang é verdade!
Espalha-me o caos...
Desordeno-me sideralmente...

O meu vazio é logo ali
Entre as galáxias
Que não se encontram
Eqüidistantes
Algo infinito
Não, não, infinito é o só
O sol do amor
A loucura fascinante dos astros
E todo o seu equilíbrio
E todo esse seu brilho!

Santa Maria e a Fumaça




Mãe, juro por tudo,
Por Santa Maria,
Era para ser só alegria,
Mas veio a faísca, a fumaça,
E a ganância estava lá,
Na única porta de saída!

Mãe, não chegarei mais,
Nem eu, nem meus amigos,
Fomos asfixiados, pisoteados,
E alguém, o demônio talvez,
Vociferava sobre comanda!

Mãe, não fique triste assim,
As chamas foram acalmadas,
A fumaça tóxica se dissipou,
Não sinto mais aquela dor,
Nem aquele infernal Calor!

Guarde-me no teu coração,

Agora estou no céu (no cosmos);
Pense-me sorrindo como sempre
Nao, não serei um simples se foi,
Porque eternamente estarei
Em teus carinhosos pensamentos!

AQUELA CRIANÇA


Veja aquela criança desengonçada, olhos baixos e introvertida,
Com medo dos olhos julgadores das meninas no pátio da escola.
Preste atenção, ele ama o céu, passa horas vendo as albas nuvens,
Ele é estranho, indiferente e esquisito aos olhos dela: fala sozinho!

Ela nunca viu, mas ele a via e logo desenhava com gestos um coração,
Escrevia coisas num caderno escolar; sentimentos da mais pura alma.
Quantas vezes ele pensou em lhe deixar um bilhete em sua carteira,
Mas sempre se perdia nas vírgulas daqueles doces olhos de Capitu!

...

Sim, estou viajando no tempo, estou no passado tão presente em mim,
Aquela criança tímida era eu, absorvido em mil sensações e desejos;
Perdido no pátio da escola, minha bússola só me levava àquela menina,
Que se mantinha distante como a ilha do tesouro que contam os livros.
Aquela menina de belo sorriso, rainha do pátio da escola, era você!

Ainda desenho corações no ar, um gesto peculiar que me tornou hábito,
Que me arrasta para aquele teu sorriso, que nunca fora me dado.
Quando eu vislumbrava as nuvens do céu, escrevia para te ter comigo.
Nas folhas daquele caderninho do primário (ainda o tenho),
Eu tinha você comigo e você dizia me amar eternamente!

Inocência e Vida




Quando criança eu vivia num mundo mágico de fábulas:
Me lembro que fui águia, fui leão, fui guerreiro
E todo dia salvava o mundo dos lobos e feiticeiros.
Mas a corrente do rio da vida me fez adulto, o fardo.

Alguém me disse que os finais não são felizes
E que o mundo é só guerra e desigualdade,
Os livros devorados só me confirmaram os fatos.

Se há tanta maldade, tanta crueldade
Me pergunto assustado: Cadê os deuses?
E uma voz de quem se percebe distante cochicha:
Os deuses, ora, se omitiram diante de atrocidades,
A escravidão, o holocausto, a fome africana...

(...)

Uma pomba rasga o cetim branco do céu;
Uma flor sobrevive à margem de uma rodovia
E Dom Quixote vira cambota dentro de mim.

Cracolândia

" O DIABO ESTÁ NO MEIO DA RUA, NO MEIO DO REDEMOINHO." (João Guimarães Rosa)



Mãos trêmulas e olhos esbugalhados...

E a dignidade passa ao largo...

Sujeira, promiscuidade, futuros desenganados...

E a oportunidade se esconde para bem longe...

Pedras que rolam de mão em mão...

Que se dissolvem de cachimbo a cachimbo...

A canhestra alquimia da morte - desordem...

É o diabo, é o mal, habitando o deserto

Das perdidas almas...

Dos que hoje são apenas resquícios de humanos...

Os zumbis dos becos escuros da metrópole...

Construindo labirintos de si mesmos...

Com as pedras que estralam, estralam...

E estraçalham o homem, a mulher e a criança...

No entanto, a sociedade ocupada com a rotina...

Segue indiferente ao abismo logo ao lado...

Pouco importando a falência da família...

Ou o choro ininterrupto de uma mãe...

Os grandes padres, os exemplares pastores...

Estão se maquiando para mais um programa de TV...

Unhas perfeitas, ternos de corte europeu...

Falam das feridas de Jesus, das chagas legadas...

Mas não tocam nas reais feridas do mundo...

Prometem o céu, o milagre, o fim do câncer...

Enquanto o diabo triunfa pela sagrada omissão...

Os políticos lotam os restaurantes, em conchavos...

Tramam o jogo de xadrez do quem fica com o cofre...

E se vangloriam de uma cidade mais limpa...

E quando chegam em casa beijam suas esposas...

Abraçam os seus filhos e pedem proteção a Deus...

Abrem a garrafa de Black Label e se extasiam...

E banqueiros pedem apoio e obras são prometidas...

Enquanto o Diabo triunfa pela dolosa omissão...

E passeia tranquilamente eu seu feudo...

A Cracolândia...

A terra do futuro roubado, da infância perdida...

Do reality show do ser humano em destroços!

AMOR IMERSO

Vejo meus olhos espiando a profundidade de meu ser Sinto meu corpo escorregando nos desfiladeiros de minha alma. E mesmo assim não perco...